Portinari  (Curiosidades) escrito em segunda 31 maio 2010 16:00

Artes, Brasil, Portinari

PORTINARI: O PINTOR DO BRASIL
A vida e a obra do menino Candinho, que saiu das fazendas de café de Brodósqui para conquistar o mundo com seus retratos sobre o povo brasileiro

á cem anos veio ao mundo um dos maiores pintores que o Brasil já teve e pôde reverenciar. No dia 30 de dezembro de 1903 nasceu Candido Portinari, filho de imigrantes italianos que haviam se estabelecido no país há pouco tempo, fixando residência no interior paulista, num vilarejo que mais tarde iria se transformar em cidade e se chamar Brodósqui.

Esse nome aparentemente esquisito é em homenagem ao engenheiro polonês Dr. Alexandre Brodowski, inspetor geral da Companhia Mogiana de Trens, que na época conduzia a construção de uma linha férrea no interior de São Paulo que cortava a pequena aldeia. Para valorizar o lugar, foi sugerida a realização de uma estação de trem, batizada de “Brodowski”. Em 1913, a cidade ganhou sua emancipação política, sendo erguida à condição de município e o nome, após algumas adequações da Língua Portuguesa, ficou como Brodósqui mesmo.

No início do século passado, Brodósqui, assim como boa parte do estado de São Paulo, tinha no café sua força econômica. Sendo assim, enormes fazendas rodeavam o lugar, acompanhadas de poucas casas brancas e de uma igreja. Passavam ali vários retirantes vindos do Nordeste, exaustos e famintos, caminhando há meses em busca de melhores condições de vida. E foi nesse ambiente de contrastes, pobreza e injustiça social que “Candinho”, como era conhecido na infância, recebeu a influência para as temáticas de suas futuras telas.

 Portinari com esposa e filho

      

       Foi na igreja que Portinari mostrou pela primeira vez sua afinidadecom a arte. O vigário local desejava encomendar uma porteira e o responsável não conseguia entender como deveria ser feito o serviço. Nisso, o menino Candinho pegou lápis e papel e desenhou a porteira. Na mesma hora o vigário, impressionado, pediu-lhe que acompanhasse um frentista francês que estava a caminho de Brodósqui para ornamentar a fachada da paróquia. Era o início, mas o garoto precisaria rumar para o Rio de Janeiro para aprender as técnicas da pintura.

 ADEUS BRODÓSQUI...

Com a ajuda de amigos da família, Portinari, aos 15 anos, partiu para a capital carioca na busca de concretizar o sonho de ser artista. Para poder sustentar-se, trabalhava de dia entregando marmitas para uma pensão e a noite pulava de galho em galho atrás de um lugar para dormir. O jovem pintor não foi aceito pela Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), pois havia estudado apenas até a 3º série. Após esta frustração, resolveu matricular-se no Liceu de Artes e Ofícios, ingressando na ENBA somente no ano posterior.

Ao entrar na Escola, Portinari participou de sua primeira exposição, em 1921, no Salão Nacional de Belas Artes. Três anos mais tarde ele decidiu disputar o concurso do Salão, pois o primeiro prêmio para o vencedor era uma bolsa-viagem para a Europa. Foram expostos quatro retratos, mais “Baile na Roça”, primeiro quadro mostrando sua gente de Brodósqui. Não foi o bastante para o adolescente ganhar o concurso. Portinari só iria lograr êxito em 1928, quando cedeu aos padrões tradicionais da academia e pintou o retrato do poeta Olegário Mariano.

 Mestiço, pintura a óleo/tela, 1934

 

       Após realizar sua primeira exposição individual, no Palace Hotel do Rio de Janeiro, o pintor viajou para a Europa, usufruindo de sua bolsa. Passeou pela Inglaterra, Itália e Espanha, fixando residência na capital francesa. E foi na cidade-luz que ele conheceu e casou-se com Maria Martinelli, uma jovem uruguaia de 19 anos que permaneceu ao lado do artista até o fim de seus dias.

Na Europa, Portinari pouco pintou. Preferiu observar e absorver todas as formas de arte que pôde apreciar dos artistas europeus, ao que ficou bestificado com a beleza das telas e começou a notar sua vocação na pintura: retratar o Brasil. Depois do retorno do exterior, em 1931, Portinari passou a valorizar mais as cores e idéias, transformando a estética de sua obra realizada até aquele momento. Com a viagem ele pôde ver melhor a sua terra e sua gente, criando o desejo de pintá-las.

RECONHECIMENTO & REVERÊNCIAS

Portinari resolveu ampliar seu trabalho, utilizando também os afrescos para expressar seus pensamentos. Em 1934 foi concebido “Mestiço”, e no ano seguinte o Brasil participou pela primeira vez da Exposição Internacional de Arte Moderna do Instituto Carnegie, em Nova York. O artista de Brodósqui enviou algumas obras, entre elas a tela “Café”, pintada em óleo, que recebeu a segunda menção honrosa do Instituto, além dos elogios da crítica norte-americana.

Com o reconhecimento internacional, Candido Portinari começou a ser requisitado e reverenciado também no Brasil. Exemplo disso foi o convite de Celso Kelly para regente da cadeira de pintura do recém-inaugurado Instituto das Artes. O ministro Gustavo Capanema chamou o artista para realizar uma série de murais no novo edifício do Ministério da Educação e Saúde do Rio de Janeiro, concluído naquela época. Foram concebidos os Ciclos Econômicos, uma série de doze afrescos, contando a história da evolução das culturas de exportação que o Brasil teve desde seu descobrimento. Começou a ser notada a partir daí a influência dos muralistas mexicanos em Portinari, tanto no suporte quanto na temática social, em voga em toda a América da década de 30.

 Morro, pintura a óleo/tela, 1933

     

       Seu único filho, João Candido Portinari, nasceu no ano de 1939. Em meio à alegria de uma nova vida, Portinari Pai expõs três telas no Pavilhão Brasil da Feira Mundial, em Nova York. Alfred Barr, diretor geral do Museu de Arte Moderna encantou-se com o quadro “Morro” e o comprou, incluindo-o nas esposição fixa do MoMA. O sucesso foi tanto que o museu convidou o pintor brasileiro a realizar uma exposição individual. Pouco depois o artista foi solicitado a fazer murais na Biblioteca do Congresso de Washington, com temas relacionados à história da América. Mas foi em Nova York que Portinari se deparou com “Guernica”, do pintor espanhol Pablo Picasso, quadro que influenciou decisivamente suas obras futuras.

     No início dos anos 40, Geroge Macy convidou Portinari a desenhar as ilustrações da segunda edição do livro Duas Viagens ao Brasil, no qual Hans Staden relata suas duas estadas no país, logo após o descobrimento. Contudo, divergências entre Macy e o pintor quanto a crueza dos índios retratados fez com que a publicação fosse cancelada. Em 1944, Portinari iniciou o mural para a igreja da Pampulha e um ano depois concluiu os murais do palácio de Capanema. O “Monstro do Trabalho”, como ele gostava de ser chamado, não parava.

    No mesmo período o artista se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), afim de realizar melhorias ao povo dolorido que ele tanto captou em suas telas. Portinari concorreu a deputado federal e anos mais tarde a senador, sem conseguir eleger-se em nenhum dos dois cargos. Apesar das derrotas, o partido cresceu e colocou outros nomes como Jorge Amado de deputado e Luiz Carlos Prestes de senador, transformando-se na “ameaça comunista” aos interesses das elites burguesas dominantes. O PCB foi colocado na clandestinidade e o cerco contra os comunistas apertou ainda mais, provocando o exílio voluntário do artista no Uruguai, onde realizaria uma exposição.

 Criança Morta, Série Retirantes, painel a óleo/tela, 1944

      

       Ainda assim, mantendo o pensamento de expressar as dificuldades sofridas pelo povo, Portinari fez a série “Retirantes”, expondo os alijados de qualquer direito, os excluídos, restando-lhes apenas a morte como consolo. É o que mostra a obra “Criança Morta”, de forte repercussão na época.

 UMA DOENÇA PÁRA O “MONSTRO”

       Em 51, Portinari voltou ao Brasil, após anistia concedida aos cidadãos presos ou perseguidos por “delito de opinião”. Mas a polêmica quanto a sua posição ideológica ainda causaria transtornos – apesar de seu distanciamento na política. No ano seguinte o governo brasileiro ofereceu dois painéis a serem instalados na organização das Nações Unidas (ONU), nos EUA. Portinari também foi convidado para executar estas obras e concebeu os painéis “Guerra” e “Paz”. Os trabalhos levaram quatro anos para serem terminados, pois, durante a realização, o pintor sofreu uma hemorragia e adoeceu gravemente. A causa diagnosticada foi aterradora: envenenamento pelo chumbo contido nas tintas.

Mesmo com esta triste notícia, Portinari encerrou as obras. No entanto, surgiu outro problema: a burocracia. Levou um ano até que as discussões entre diplomatas norte-americanos (que não queriam a obra de um comunista) e diplomatas brasileiros terminasse na liberação do material a ser exposto na ONU.

Impedido de pintar por causa da doença, Portinari dedicou seu tempo a ilustrações e o faz para diversas obras, como A Selva, de Ferreira de Castro. Acompanhou também várias exposições de seus trabalhos pelo mundo, viajando inclusive para a Itália e Israel. Este último país influenciou muito sua maneira de pintar, modificando-a novamente nos últimos dias de vida.

 Retirantes, Pintura a óleo/tela, 1945

       

      Aos poucos, Portinari retomou a pintura, mesmo a contragosto dos médicos. Participou de sua última exposição individual em vida, no Rio de Janeiro, em julho de 1961, e no mesmo ano fez um retrato de sua neta Denise. No início do ano seguinte, a prefeitura de Milão, na Itália, chamou o pintor de Brodósqui para uma exposição com 200 telas. Ao trabalhar em demasia com as tintas para este evento, um novo envenenamento lhe acometeu, matando-o na manhã de 6 de fevereiro de 1962. Candido Portinari deu a vida aquilo que mais lhe era caro: a pintura. Ou, como melhor dissera Carlos Drummond de Andrade, o que Portinari criou é sua vida maior e sem fim: a verdadeira.

por Rodrigo Herrero- http://www.rabisco.com.br/32/portinaribio.htm

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